sexta-feira, 5 de agosto de 2011

As Duas Árvores de Valinor

        No início dos tempos, diz-se entre os sábios que a Primeira Guerra começou antes que Arda estivesse totalmente formada (...); e por muito tempo Melkor prevalesceu. Entretanto, no meio da guerra, ao ouvir no distante firmamento que havia batalha no Pequeno Reino, um espírito de enorme força e resistência veio em auxílio dos Valar(...). Tulkas, o Forte, cuja ira circula como um vento poderoso, afastando a nuvem e a escuridão à sua frente(...); e Melkor fugiu de sua fúria e de suas risadas, abandonando Arda, e a paz reinou. Nesse período, os Valar trouxeram ordem(...), e como houvesse necessidade de luz, Aulë, a pedido de Yavanna, criou duas lamparinas poderosas para iluminar a Terra-média(...); ergueram uma lamparina junto ao norte, chamando-a de Illuin; e a outra, ao sul, chamou-a Ormal; e a luz das Lamparinas dos Valar se derramou por toda a Terra. Então, as sementes que Yavanna havia plantado logo começaram a brotar, assim como outros seres vivos e toda a natureza do local(...). Manwë ofereceu uma grande festa; e os Valar e toda a sua gente atenderam ao convite. E Melkor sabia de tudo o que era feito, pois já naquela época dispunha de espiões e amigos secretos entre os Maiar(...). Assim, Melkor chamou a si os espíritos que desviara para seu serviço, fazendo-os sair das mansões de Eä.
        Tulkas então adormeceu, exausto e contente, e Melkor acreditou que sua hora havia chegado. Transpôs as Muralhas da Noite com sua legião e chegou à Terra-média, a distância, no norte, sem que os Valar dele se apercebessem. Assim, iniciou então as escavações e a construção de uma enorme fortaleza nas profundezas da Terra, que chamou de Utumno. E, embora os Valar ainda nada soubessem a respeito, mesmo assim a perversidade de Melkor e a influência maléfica de seu ódio emanavam de lá, e a Primavera de Arda foi destruida(...). Os Valar então saíram a procura de Utumno, mas Melkor logo apresentou uma luta e deu o primeiro golpe antes que os Valar estivessem preparados; atacou as luzes de Illuin e Ormal(...); e, quando as lamparinas foram derrubadas, lavaredas destruidoras se derramaram pela Terra(...), e em meio à confusão e às trevas, Melkor conseguiu escapar(...). Assim terminou a Primavera de Arda.
       
Então os Valar partiram da Terra-média e foram para a Tera de Aman. Lá fortificaram sua morada e, junto ao litoral, ergueram as Pelóri, as montanhas de Aman, as mais altas de toda a Terra. E no topo da montanha Manwë instalou seu trono. Taniquetil é como os elfos chamam essa montanha sagrada(...). Por trás das muralhas das Pelóri, os Valar estabeleceram seu domínio na regiao chamada Valinor; e ali foram construida sua morada, que acabou ficando mais bonita que a Terra-média na Primavera de Arda(...); e quando estava pronta, os Valar construiram uma cidade, no qual o seu portão ocidental havia uma colina verdejante, Ezelloah; Yavanna a consagrou, e ficou ali sentada muito tempo sobre a relva verde, entoando uma canção de poder, na qual expunha o que pensava; Nienna, porém, meditava calada e regava o solo com lágrimas; os outros Valar apenas observavam, cansados.

     E enquanto olhavam, sobre a colina surgiram dois brotos erguios; e o silêncio envolveu todo o mundo naquela hora, nem havia nenhum outro som que não o canto de Yavanna. Em obidiência, as árvores jovens cresceram e ganharam beleza e altura; e vieram a florir; e assim, surgiram no mundo as Duas Árvores de Valinor. Uma tinha folhas verde-escuras, que na parte de baixo eram como prata brilhante; e de cada uma de suas inúmeras flores caía sem cessar um orvalho de luz prateada; e a terra sob sua copa era manchada pelas sombras de suas folhas esvoaçantes. A outra apresentava folhas de um verde viçoso, como o da faia recém-aberta, orladas de um dourado cintilante; e a flor emanavam calor e uma luz esplêncida. Telperion, a primeira, e Laurelin era a outra. Em sete horas, a glória de cada árvore atingia a plenitude e voltava novamente ao nada; e cada uma despertava novamente para a vida uma hora antes de a outra deixar de brilhar. Assim, em Valinor, duas vezes ao dia havia uma hora suave de luz mais delicada, quando as duas árvores estavam fracas e seus raios prateados e dourados se fundiam. Telperion era a mais velha das árvores e chegou primeiro à sua plena estatura e florescimento; e aquela primeira hora em que brilhou, com o bruxulear pálido de uma alvorada de prata, os Valar não incluíram na história das horas, mas denominaram a Hora Inaugural, e a partir dela passaram a contar tempo de seu reinado em Valinor(...).

E as gotas de orvalho de Telperion
e a chuva que caía de Laurelin,
Varda armazenava em enormes tonéis,
como lagos brilhantes, que eram para
toda a terra dos Valar como poços
de água e luz.


Tirado do livro "O Silmarillion",
1º capítulo do Quenta Silmarillion - A História das Silmarils,
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